Sábado, 26 de Maio de 2012

Irmãos Mistério, artesãos. Barcelos.

(Versão tons de creme das fotografias produzidas para a revista CIDADE 21, no âmbito de uma reportagem acerca do figurado barcelense. Texto de Catarina Abreu)




Artesãos diferentes, a mesma inquietação. Francisco ficou com o cognome do pai (Domingos Mistério) e com o seu saber. Perpetua agora a tradição que não vê reflectida nos projectos das novas gerações. Há mais de vinte anos dedicados à arte, tem um irmão que também assumiu o desafio. Afinal, “morreu o mestre mas não morreu o nome”. Francisco não tem qualquer prurido em fazer as “coisas mais malandrecas” que os clientes lhe pedem. Já pôs o Santo António a andar de bicicleta e de skate e fez a última ceia... dos demónios. “Gosto de temas publicamente incorrectos e há pessoas que ficam ofendidas. Mas não têm nada que ficar. É que não há limites para a brincadeira nem para a imaginação”.



CR/de


Domingo, 29 de Abril de 2012

Júlia Ramalho, artesã. Barcelos


(Versão tons de creme das fotografias produzidas para a revista CIDADE 21, no âmbito de uma reportagem acerca do figurado barcelense. Texto de Catarina Abreu)


Tem mais de 50 anos no corpo. A avô de Júlia Ramalho, a certa altura, quando tinha muito trabalho a fazer peças de artesanato, “pegou na sua pequena tribo e pô-los a trabalhar”. A mais franzina, mas com mais jeito, Júlia foi quem melhor vingou. O seu primeiro salário foi de 90 escudos por semana - “um luxo!” - e a primeira peça que vendeu, com dez anos, foi um boneco, por cinco coroas, ao qual já perdeu o rasto.


Júlia Ramalho gosta mesmo é das suas medusas de cabelos mil. Dessas não se desfaz. Só trabalha em vidro castanho mel - “às vezes até parece caramelo” - que, recorrendo à técnica de fumo, fica verde. “Assim já se pode brincar com os tons”. Tal como muitas dos seus pares, não gosta de fazer diabos e acredita que há peças que dão mesmo azar. 

Recorda a história de uma feira de artesanato quando uns catalães lhe ofereceram um diabo. Júlia achava que tinha um olhar estranho e deu-o a um amigo. A partir daí, tudo corria mal ao amigo, que não querendo deitar a peça fora, ofereceu-o a outra amiga, ignorando o conselho de Júlia de se desfazer daquele pobre diabo e deitá-lo ao rio Douro.  Um dia a artesã recebeu um telefonema de uma senhora de Lisboa, que, com a vida em ‘pantanas’, lhe perguntava o que fazer ao mal fadado demónio. Finalmente, foi destruído, não fosse assombrar a vida de mais alguém. 

CR/de

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

A festa da matança no Alto Barroso, Trás-os-Montes.

(Fotografias publicadas nas revistas Photo Magazine Brasil n.º 40,  O Mundo da Fotografia Digital n.º 79, e Super Foto Digital n.º 160 e n.º 170)

Há muito tempo que o isolamento geográfico forjou a identidade do Alto Barroso. É uma região que os filhos da terra, residentes ou não, fazem questão na continuidade dos seus costumes, de que é exemplo a festa da matança.



Apesar do surgimento dos sistemas de frio na década de oitenta, poucas foram as alterações de ordem tecnológica introduzidas no processo da matança do porco no Alto Barroso, desde o início do século XX. Se excluí-mos o recurso a alguns utensílios contemporâneos, é possível aferir In-loco a um ritual de gestos e diferentes práticas ancestrais: o abate com faca, a desmancha tradicional, o recurso à salga, a secagem, a defumação, e em determinadas aldeias da Serra do Barroso até a conservação por meio da gordura. A manutenção nos dias de hoje de tais métodos centenários de transformação e conservação da carne com vista ao seu consumo, quando acessíveis outros meios mais eficientes e, civilizados, evidencia uma luta imaginária por um património identitário outrora rico e forte. 




O passado e o presente da festa da matança

A festa da matança, tal como se apresenta hoje no Alto Barroso, é uma festividade relativamente recente. A tradicional matança do porco em Portugal Continental era uma pequena festa familiar, ou uma refeição de trabalho no dia da matança, Jantar da Matança, à base de sangue e fígado do porco - partes perecíveis do animal não sujeitas à salga nem à defumação. Mas em certas aldeias do Alto Barroso a tradicional festa da matança, Ceia da Matança, tinha lugar somente uma semana após a desmancha do porco. Distinta das outras refeições da matança, era apelidada de “Ceia dos ossos da suão”, por ser à base da coluna vertebral do porco, entretanto colocada na salgadeira. Contrariamente à imagem transmitida pelas actuais ceias da abundância no Barroso, antigamente, estas ocorriam exclusivamente em casas de famílias abastadas, denominadas “casas grandes”. Ao longo do tempo a Ceia da Matança perde expressão, e a refeição de trabalho no dia da matança ganha dimensão e significado festivo de maior relevo. Sobreviveriam as últimas que, posteriormente, já se apresentavam em moldes similares às actuais Ceias de Barroso. Esta mutação da festa terá iniciado em meados dos anos sessenta e, a partir dos anos setenta, dá-se a institucionalização de uma festa diferente das suas antecedentes: onerosa, elevado número de convidados, presença de tocadores, forte cariz social extravasando as fronteiras da aldeia, refeição não limitada unicamente às carnes de porco e seus derivados, e até motivo de disputa entre casas-famílias. 



Na base do nascimento desta nova moldura festiva no Alto Barroso, esteve o êxodo rural por via da emigração e migração verificada na década de sessenta, e as transformações sociais e económicas ocorridas com o pós-25 de Abril de 1974. Contudo, a nova festa só foi possível em virtude da melhoria das condições de vida registada nas últimas décadas pela camada social mais empobrecida. Dos vários factores que contribuíram para tal, a entrada de capital monetário na esfera aldeã proveniente das remessas de dinheiro enviadas pelos filhos da terra, entretanto ausentes, é o mais relevante.  Só a partir de então é que a maioria das famílias pobres passou a criar e a matar o seu próprio porco. Daí que se compreenda que sejam hoje estas famílias, em particular os seus descendentes, os que mais investem no contraste entre o presente, o da abundância, e o passado, o da privação.  


O aparecimento da arca congeladora no início dos anos oitenta e, mais recentemente, a utilização do maçarico de gás e do compressor de água, não colocaram em causa as técnicas tradicionais de abate e conservação. No entanto, verificaram-se mudanças no modo de criação dos porcos; nomeadamente, o abandono da deambulação dos animais pelos caminhos das aldeias, a proliferação do porco branco (Large White) em detrimento do porco Bísaro (raça autóctone), e a introdução das rações na sua dieta alimentar por forma a itensificar a produção de carne.


Nestas festas o serviço à mesa é levado a cabo pelas mulheres que nunca chegarão a sentar-se à mesma. Só as mulheres exteriores à aldeia, convidadas, participam na ceia enquanto comensais. As mulheres da aldeia presentes, parentes e ajudantes da dona da casa, mantêm-se de pé na cozinha até ao término da refeição. Só então poderão degustar o manjar.


Cozinha-se sempre em quantidade superior à consumida por forma a distribuir o excedente aos que ajudaram na matança e aos que não puderam estar presentes, ou que não foi possível convidar. Participam um a dois representantes de cada casa, próximos da família anfitriã. A refeição ocorre na sala de jantar, numa garagem livre, ou na própria cozinha, quando a casa é pequena e não dispõem de sala de jantar. A mesa é disposta em rectângulo aberto, decorada com toalhas guardadas para a ocasião. O vinho, o pão, os petiscos, e os pratos de comida, são colocados em intervalos regulares por forma a ficarem acessíveis a todos, independentemente, do estatuto de cada um dos presentes - prevalece aqui o princípio do igualitarismo. 

Quer nas grandes, quer nas pequenas-médias festas da matança, os cantares ao desafio são uma constante.


Tempos de mudança

Pese embora o inegável papel da matança do porco na economia doméstica do Alto Barroso, a mudança do quadro cerimonial da festa é, não só, vista como uma defesa de um velho modo de ser e fazer, como representa também um novo palco de múltiplos interesses e grupos sociais. Assistimos assim à reprodução aparente da tradição, articulando o comum da comunidade de um mesmo espaço social periférico, e as novas demandas económicas, políticas e sociais. 


No "filme fotográfico" aqui apresentado encontrará as duas realidades das festas da matança. O primeiro conjunto de imagens retrata uma matança dita “forte” pelos aldeões de Morgade, freguesia do concelho de Montalegre, situada na Serra do Barroso, em Trás-os-Montes. Número de convivas que ultrapassa a centena de pessoas, notoriedade de alguns dos presentes, elevado número de abates, longa duração, e despesa realizada na ementa da festa. Estas festas tem como protagonistas famílias em ascensão sócio-económica (“novos-ricos” oriundos de casas humildes de antigos camponeses), tendo como primordial objectivo exibir o seu novo estatuto social, não só na comunidade aldeã, como fora dos limites desta.


A segunda sequência de fotografias retrata a denominada “pequena-média” matança. Nestas festas mais humildes estão presentes os membros da família, vizinhos e amigos, num total que geralmente não ultrapassa as duas dezenas de pessoas. São abatidos um a seis suínos, predomina um forte sentido de entreajuda com retribuições mútuas de dias de trabalho, e consolidação dos laços sociais com os parentes mais próximos. Para além do habitual auto-sustento, estas matanças passaram a representar uma importante fonte de rendimento extra para o agregado familiar - a popular Feira do Fumeiro e Presunto de Barroso, nascida nos anos noventa, não é alheia a esta nova motivação de carácter mais comercial da matança.


Em qualquer dos casos, poder-se-á dizer que são ceias de ontem ao sabor dos tempos de hoje!



CR/de



Domingo, 1 de Janeiro de 2012

Callanish Stones, Lewis. Scotland

(Fotografia publicada na revista O Mundo da Fotografia Digital, edição n.º 80)


Em Outubro de 2010, a quando de uma viagem à Escócia, Lewis foi uma das minhas paragens. Estava curioso em abordar os neolíticos de 4000 anos de idade situados nesta ilha - as Callanish Stones. Não tanto pelo seu valor arqueológico, mas sobretudo pelo misticismo que lhes é associado. São várias as lendas atribuídas a estas pedras; desde a impossibilidade de se obter sempre a mesma contagem, até ao mito de mudarem de posição durante a noite, surgindo no dia seguinte de diferente alinhamento.

Por diversas vezes abordadas por nomes sonantes da fotografia, nomeadamente, o Inglês Joe Cornish, estas possuem formas e texturas fortes. Contudo, a abordagem fotográfica ao local não é de todo óbvia. Uma volta ao longo do perímetro em busca de uma correlação dinâmica entre o conjunto de pedras, impõem-se.

No registo em epígrafe, a relação estabelecida entre o neolítico proeminente e os restantes, originou uma perspectiva interessante. Ao emergirem de forma tão escultural contra o céu que ameaçava desabar, acentuaram o cariz místico do local.

Com alguma dose de imaginação pelo meio, poder-se-á aferir na terceira pedra a contar da direita, uma face monstruosa, revelada por um sobrolho e pela saliência em forma de nariz. Na pedra da esquerda, a principal deste complexo arqueológico, podemos delinear outro rosto, ainda que grotesco, ao estilo das caveiras “tipo-polvo” no filme Pirata das Caraíbas de Johnny Depp.


Bom Ano de 2012!

CR/de


Sábado, 29 de Outubro de 2011

"Os meus Diabos", de Júlia Côta. Barcelos

(Fotografia publicada na revista O Mundo da Fotografia Digital, edição n.º 78)


Júlia Côta, artesã barcelense, abre o seu mundo ao meu sentir revelando-nos a sua arte. No próximo mês embarque numa viagem até ao “inferno” desta incrível mulher, e encante-se pelos seus diabos. 

CR/de

Sábado, 6 de Agosto de 2011

Fumeiro, Montalegre

(Fotografias publicadas nas revistas Super Foto Digital n.º 164, O Mundo da Fotografia Digital n.º 79, e na Photo Magazine n.º 40, edição brasileira)


Longe vão os tempos em que o isolamento geográfico marcou forte presença na capital do Barroso. Hoje, Montalegre abraça o mundo através das suas festas, feiras e cultura tradicional comunitária.

Nascida nos anos 90 e por muitos considerada a rainha das feiras, a Feira do Fumeiro de Montalegre é o expoente máximo dessa exteriorização. Perfumada com os odores típicos do presunto (e não só), é alvo todos os anos de milhares de visitantes na ânsia de poderem degustar os sabores genuínos da terra. Na base deste verdadeiro êxodo está o empenho do município Montalegrense e da Associação de Produtores de Fumeiro da Terra Fria, na divulgação e promoção deste importante certame.

Vários foram os momentos de relevo na XX edição desta Feira do Fumeiro: faces únicas numa atmosfera não menos singular. Aqui fica uma curta-metragem fotográfica do maior evento económico e turístico deste concelho, onde não faltou o ambiente festivo e o orgulho das suas gentes!





Alguns indicadores da XX Feira do Fumeiro:

 Duração do certame: 4 dias
   N. º de expositores: 84   
      N. º de visitantes: mais de 60.000

Produtos vendidos
                   Presuntos: 758 un
                             Pás: 436 un
                         Pernis: 733 un
                  Queixadas: 456 un
                     Cabeças: 484 un
                         Peitos: 442 un
                      Barrigas: 796 un
    Chouriças de carne: 7.115 kg
                     Salpicão: 3.997 kg
                      Alheiras: 8345 kg
Chouriços de abóbora: 2.780 kg
                 Sangueiras: 3.080 kg 
                 Farinheiras: 1.493 kg 

                 Quantidade total vendida: 70 toneladas 
Facturação total (directa e indirecta): cerca de 5 milhões Euros

CR/de

Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

Boi do Povo

(Fotografia vencedora da rubrica "Olhares", revista O Mundo da Fotografia Digital, edição n.º 74)


Únicas na Europa, as Chegas de Bois opõem dois imponentes machos que facilmente ultrapassam a tonelada de peso. De “cornos infinitos” como Miguel Torga tão bem descreveu, defrontam-se apenas numa clara demonstração de força. Por vezes, estes combates prolongam-se por mais de meia-hora, na maioria das vezes, basta alguns minutos até que um recue para o outro vencer.

Outrora realizadas em pleno campo aberto de pasto natural, Lameiro, estas lutas de gigantes de raça Barrosã era como uma disputa entre aldeias vizinhas. De tempos a tempos, o Boi era reclamado pelo povo a medir forças com os machos de outras aldeias. Verdadeira bandeira do comunitarismo, o “Boi do Povo” era então por todos tratado, recaindo sobre ele a missão de defender a honra da sua aldeia. 

Longe vão esses tempos em que esta raça, apurada e delimitada pelo isolamento geográfico então presente, abundava em número pelas paisagens do Barroso. Com o incremento da cultura da batata comercial a partir dos anos 30 - com a consequente passagem ao cultivo de uma boa parte dos Lameiros destinados aos bovinos -, e a reflorestação dos baldios a partir dos anos 40 pelos serviços florestais do Estado, ditavam o início de um período menos auspicioso para a raça Barrosã. A tomada dos melhores Lameiros pelas águas das barragens hidroeléctricas construídas entre meados dos anos 40 a finais dos anos 60, e o abandono maciço das terras em busca de melhores condições de vida além-fronteiras, reforçavam o declínio desta raça autóctone.

Por forma a recuperar este património genético e cultural do Barroso, surge em 1999 por iniciativa de Fernando Moura e Nuno Morais, a Associação Etnográfica “O Boi do Povo”. Com o apoio municipal da Capital do Barroso, esta associação promove anualmente o campeonato de Chegas de Bois raça Barrosã. Durante os meses de Junho a Agosto são atribuídos prémios monetários de igual valor, quer aos vencedores, quer aos vencidos deste campeonato, como forma de incentivo à criação da raça Barrosã.



Deste modo, o campeonato de Chegas de Bois raça Barrosã contribui no reinvento da tradição, estabelecendo habilmente uma ponte entre o passado, o “comum da comunidade”, e as novas práticas éticas, económicas e sociais.

Só assim, nos é possível compreender a forte adesão a este espectáculo rei por terras do Barroso!

CR/de

Domingo, 3 de Abril de 2011

Matança do Porco no Alto Barroso

(Fotografia publicada na revista Super Foto Digital, edição n.º 160)



Dizem que a tradição já não é o que era. É um facto. Contudo, terras há onde a tradição, aparentemente, ainda é o que era. No Alto Barroso, em Trás-os-Montes, é possível encontrar aldeias que os filhos da terra ainda fazem questão na continuidade dos seus usos e costumes.

Na sequência de fotografias aqui apresentadas encontrará duas realidades das festas da matança. O primeiro conjunto de imagens retrata uma matança dita “forte” pelos aldeões de Morgade, freguesia do concelho de Montalegre, situada na Serra do Barroso, em Trás-os-Montes. Número de convivas que ultrapassa a centena de pessoas, notoriedade de alguns dos presentes, elevado número de abates, presença de tocadores, longa duração, e despesa realizada na ementa da festa. Estas festas tem como protagonistas famílias em ascensão sócio-económica (“novos-ricos” oriundos de casas humildes de antigos camponeses), tendo como primordial objectivo exibir o seu novo estatuto social, não só na comunidade aldeã, como fora dos limites sociais desta.

A segunda sequência de fotografias retrata a denominada “pequena-média” matança. Nestas festas mais humildes estão presentes os membros da família, vizinhos e amigos, num total que geralmente não ultrapassa as duas dezenas de pessoas. São abatidos um a seis suínos, predomina um forte sentido de entreajuda com retribuições mútuas de dias de trabalho, e consolidação dos laços sociais com os parentes mais próximos. Para além do habitual auto-sustento, estas matanças passaram a representar uma importante fonte de rendimento extra para o agregado familiar - a popular Feira do Fumeiro e Presunto de Barroso, nascida nos anos noventa, não é alheia a esta nova motivação de carácter mais comercial da matança.




Em qualquer dos casos, uma realidade distinta das antigas festas da matança no Alto Barroso, promovidas pelos senhorios das “casas grandes”.
Outrora Luís Vaz de Camões dissera: “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades”; agora, poder-se-á dizer que são festas de ontem ao sabor dos tempos de hoje!

CR/de




Domingo, 20 de Março de 2011

O Afiador de Galhas

(Fotografias publicadas nas revistas O Mundo da Fotografia Digital e CIDADE 21, edição n.º 70 e 22 respectivamente)



Conhecidas de muitos, as Chegas de Bois encerram faces (e facetas) desconhecidas de muitos mais - o Afiador de Galhas é apenas uma delas.

Desengane-se quem julga se tratar de uma mera intervenção cosmética aos cornos do boi. É sim, um verdadeiro trabalho de artesão, no qual obter uma galha devidamente pontuda sem fragilizar a rusticidade que as presas de um boi de combates exige, é o segredo desta arte intimamente ligada às lutas de bois de cobrição.

António Alves Duarte, mais conhecido como o "Toninho dos campeões", conta com mais de três décadas como criador e afiador de galhas de bois. Aficionado pelas Chegas de Bois, divide o seu tempo entre a profissão de fiscal de obras e a paixão pelos bois de lutas. “Só se dedica a isto quem tem paixão pelos bois”, afirma António orgulhoso dos seus três campeões. Dois mil e dez foi um ano particularmente feliz para este criador; os seus exemplares venceram tudo o que havia para vencer, e são os principais favoritos para as Chegas de 2011.

Na véspera de cada luta, os criadores de Bois de Chegas acordam se se afiam as pontas, se podem introduzir pontas de aço, ou até enxerto de pontas de cornos, quando o animal se apresenta mal servido delas. Questionado à cerca da razão de ser deste velho costume levado a cabo apenas algumas horas ou minutos antes do combate, António Duarte responde, dizendo que “é para picar melhor, para enervar o outro boi, para termos uma boa chega”.

É na azáfama dos meses quentes do ano, quando o apelo à cultura tradicional comunitária é mais forte, e quando a família Montalegrense vinda de além-fronteiras, migrada ou residente, pode finalmente se dar ao tempo do reencontro e percorrer os caminhos das Chegas, que António Duarte não tem mãos a medir pelas freguesias do concelho. Durante este périplo comunitário António Duarte afia as galhas dos bois dos amigos, dos bois dos vizinhos, e até dos bois opositores se tal for necessário. Gratuitamente, fá-lo com o mesmo afinco e apreço que dedica aos seus próprios animais; “nós aqui, não temos dessas rivalidades, o que queremos é uma boa chega, e no fim, quer o boi ganhe ou perca, vamos todos merendar”, diz António Duarte com um ligeiro sorriso.

Exímio no manuseamento da lima como poucos, apoiando-se por vezes nas barras de ferro do curral, António lá vai com a outra mão afiando as galhas do boi num verdadeiro exercício físico de corar os mais jovens. Habilmente, retira as últimas farpas recorrendo a movimentos dignos de registo.



Se há terras que há muito sucumbiram a novos estilos de vida, importados e impostos por força de uma economia cada vez mais global e globalizante, outras há que juntam um crisol de tradições em nome de uma identidade que se quer viva e bem defendida.
Afinal, são gentes a norte do norte de Portugal!

CR/de


Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

O rosto da felicidade

(Fotografia publicada na revista Super Foto Digital, edição n.º 154)



Diz o povo, “quem vê caras não vê corações”. Pessoalmente, e discussões à parte, não subscrevo tal dito popular.

Para mim, o rosto é o espelho da alma e do estado de espírito, e o único capaz de dar forma às nossas emoções a partir de uma simples expressão.  

Infinitas são as sensações e as mensagens de personalidade transmitidas pelo rosto, fazendo do retrato um dos géneros fotográficos mais apreciados, quer por fotógrafos quer pelo público em geral.
A pequena beldade aqui retratada, espelha no olhar o seu dócil carácter, e no sorriso a sua felicidade.
Bem hajam!
CR/de



Domingo, 31 de Outubro de 2010

Assembleia de Pequenotes

(Fotografia publicada nas revistas NS' - Notícias Sábado n.º 183, O Mundo da Fotografia Digital n.º 66, Super Foto Digital n.º 111, e DP Arte Fotográfica n.º 15)






















Desde que embarquei no mundo da fotografia, sempre me chamou a atenção o comportamento das pessoas no seu dia-a-dia. Na sua maioria, concentram-se na leitura dos jornais, em conversas politizadas com o vizinho, ou simplesmente passam horas no café a olhar o próprio umbigo. Poucos são os que se dispõem a prestar atenção a um momento que se apresenta num simples virar de esquina. É normal, nada daquilo é novidade, tudo é familiar, e como tal, indigno de um sentir mais profundo. 
No lado oposto deste (des)sentir, ocorre exactamente o inverso: quando estamos num lugar novo, perante culturas e paisagens bem distintas das nossas, a tendência é observar tudo com uma exuberância exagerada - o diferente atrai, o exótico prende os sentidos, o que é natural e perfeitamente compreensível.
É neste ponto que reside um dos grandes, talvez o maior, desafio do fotógrafo de viagens. Quando tudo parece ser um bom motivo para um novo click, é fácil cair na tentação (e erro!) do registo do desconhecido, da novidade, da banalidade...
É o caso dos motivos em que fotografamos mais pela emoção de estarmos num local diferente, estranho às nossas experiências anteriores, do que pelo valor estético ou narrativo que os registos encerram em si.
   
Quando realizei a fotografia em epígrafe, caminhava por ruelas de uma aldeia de Cabo Verde - não divulgada nos prospectos de turismo por razões óbvias -, quando um grupo de adolescentes reunidos em torno de paus e pedras num jogo qualquer, prendeu o meu sentir. Agachei-me no meio da estrada (felizmente, o trânsito era insignificante), enquadrei o grupo e aguardei até que um deles alertasse os restantes. Quando olharam para aferir o que se passava em seu redor, fiz o meu pedaço de tempo capturando as expressões de curiosidade de alguns.
É assim que evito a superficialidade do mero registo!
CR/de